Iniciação do cárcere

Thiago de Mello

INICIAÇÃO DO CÁRCERE

 

 

RECONHECIMENTO DA CELA E DO ESPAÇO.

 

É A SOLITÁRIA. Mal entro e muitos ran-

gidos de metais rudes me trancam: fico

sozinho e de pé no cimento exíguo. Fede.

Preciso urgentemente de pontos cardeais.

Descubro a abertura esguia lá em cima: não

mostra nada, mas é a minha janela. E ter ja-

nela é bom. Dou os poucos passos que cabem,

são quase cinco: investigo o duro espaço vital

que vai ser meu não sei quanto tempo. Ainda

é muito cedo para me pôr questões. A porta

é verde e é bom ter um verde a meu lado.

Chego às grades e nas pontas dos pés olho

o corredor: a sentinela não fala, vai e vem,

a sentinela é móvel, não sabe nada, não diz

nada, vai e vem, metralhadora na mão. O

olhar de ferro é fingido, seu peito é jovem

demais, forrado de ignorância. Estendo-lhe

como ponte a palavra “companheiro”: um

doce brilho fugaz humaniza o seu olhar, que

perturbado retorna à dureza militar. A sen-

tinela não fala nada, a sentinela é móvel,

vai e vem. Regresso ao lado de dentro, que é

o meu: preciso ir-me acostumando ao mundo

infinito entre esses muros que mereci como

prêmio pelo amor à liberdade. No extremo,

a latrina velha é um privilégio de louça. Fede

muito e faz calor. (Nenhuma pressa de

achar de onde é que vem o fedor.) Torço a

chave na parede: da boca escura do cano

desce o jorro cristalino. É ruim, mas poderia

ser muito pior: tem janela (mas não mostra

nenhum céu), tem porta verde (cerrada) e

tem água: a vida inteira se explica na liber-

dade do banho. Depois me sento no catre: o

fedor é do colchão. Palha e pano devorados

de suor e solidão. Movo-me: perturbo a vida

e a paz de seres ligeiros e ferozes que resi-

dem nas dobras e labirintos deste universo

que fede.

 

 

NOITE DE SOLITÁRIA.

 

Agora vai ser a noite. Uma sombra suja

vem, penetra na cela e escondida se en-

colhe, como se feita de pêlos, e me fica

farejando num buraco do colchão. Solidão só

foi agora que deu sinal. Disfarçou-se nas pa-

redes como pôde. Esperou descer a noite para

chegar já profunda, estirar-se do meu lado,

onde calma vai cavando um buraco no meu

peito, dentro do qual se agasalha a dor

grande do meu povo. Entre pulgas e mosqui-

tos, que meu sangue se repartem, o jeito é

usar o lençol: escuro de serventias, apodreceu

resguardando humores e resíduos de muitos

que aqui dormiram antes de mim: encontrei-o

esquecido hediondo, agora o busco e enrolo

minha noite em seu negrume. Passeia em meu

pescoço um rumor que estremece: é um

rumor de barata que me encontra, me estra-

nha, não perde tempo e corre, arabesco de

aventura na palma da solidão, que se abre

escura em meu peito.

 

 

O REFRÃO E A MEMÓRIA.

 

Lição de cadeia fica

e

cadeia deixa mancha. Estes dois refrãos vêm

da infância, ficaram dormindo no caminho que

fiz de vida desde que os barrancos deixei.

Chegados me levam com eles —— então saio,

ai, nunca fui tão livre, atravessando os cam-

pos gerais, avanço no perfume de mariranas

maduras, as mangabas florescem, e pelo ata-

lho fofo de cajueiros chego ao igarapé mais

claro, demandando a tarde. E de repente mo-

ças vêm, carregando bacias, e batem roupas

brancas, camisas dos seus homens nos cedros

da beirada, e eu sou deslumbrado entre os

olhos que espiam do capinzal e vejo o sol

brilhar nos joelhos dourados, dos cabelos

escorrem doces brilhos: a mais morena er-

gueu-se, entrou no rio, há uma canção nas

águas, pela blusa molhada transparecem-lhe

os seios, que depois se vão embora, nunca

mais voltam, vão subindo, lá vai a moça,

nunca mais vou me esquecer, ela ganha um

desvio ao vento dos buritis que guarnecem

os muros da penitenciária, muros tristes, altos

mas deles uma ponte no tempo se alteia

e me traz de retorno ao mormaço da cela

e aos refrãos de cadeia.

 

 

O REFRÃO E A MANCHA.

 

De novo o refrão lembra que lição de ca-

deia fica e muito mais fica a mancha que

a cadeia deixa na vida do homem, nunca sai

direito e o tempo nem sempre lava: torce

a mancha de lugar e às vezes desfigura o

contorno e confunde os sinais que nunca se

apagam. A mancha vai ficar, mas não em

mim. A mancha está lá fora, imensamente à

mostra, na fronte soturna do grande carcerei-

ro, não só meu nem dos oito companheiros

de grito, nem de quantos patrícios inocentes

padecem no tormento dos cárceres. Carcerei-

ro da alegria de todo um povo que começa

a ver naquela fronte a mancha que não sai,

que não sai, mas vai ser o sinal quando

chegar o dia que vai vir, que vai vir.

 

 

OS DE OLIVA QUE VÃO.

 

Mas de alguma coisa fico obrigado a esta

cadeia. Principalmente a alegria de encon-

trar entre rudezas e opacidades, a marca,

transparente e indisfarçável, da ternura soli-

dária, no gesto simples de homens como qual-

quer um de nós, que só se vestem de oliva

por força de lei. Seus nomes não vão comigo,

mas sei que somos um só, mas sei que eles

vão um dia repartir conosco o pão que sem-

pre dá, quando é mais de um que come.

 

 

AMANHECE O ÚLTIMO DIA.

 

Já amanheci quinze vezes dentro da noite

crescendo. Hoje um toque de clarim con-

fundiu-se no meu sonho ao canto livre dos

homens que celebravam a força da terra azul

possuída pelo amor dos que trabalham. Olhos

abertos, me encontro ao sabor de uma al-

vorada que o corneteiro me impõe. Falta

muito para o dia. Mas neste reino alvorada

tem hora certa: disciplina é o principal.

Ainda é longe a claridão, ainda galopam os

cavalos de fogo: mas já é alvorada — o cor-

neteiro é quem diz (e dizer ele diz bem).

É uma ordem, e foi dada: a aurora inteira

se enquadra no regime militar. Do qual, por

sorte, me salvo. Paisano e poeta, não me

comandam em matéria de alvoradas. Pois

acho pouca a manhã, que ainda falta e não

cabe na fundura desta cela. Mas não é só que

ainda falte. Esta manhã não tem gosto de ama-

nhecer, vem-lhe um ranço de fim de tarde

vazia. Nem cheiro tem de manhã. Não peço

o orvalho no vento, nem o capinzal molhado,

viração da manhãzinha varando a luz do

curral, que essas manhãs se esconderam nas

terras altas da infância. Nem o cheiro de

açucena que amanhece na ternura da com-

panheira dormindo. Esta manhã cheira a

mofo, a lixo velho e rescende a talos podres,

vingados. Tem gosto de água encardida, custa

a chegar, é manchada, não traz nada e cheira

mal. Mas é a manhã que eu tenho, mas é a

minha —— e é manhã. Aqui estou, seu com-

panheiro, contente de coração.

 

 

A MANHÃ MENSAGEIRA.

 

Vejo em teu rosto, manhã, o sinal que se

repete, simplesmente, na lição de começar

cada dia e de chegar entregando. Contigo

aprendo no escuro a trabalhar o meu dia e

descubro a advertência com que te entregas à

noite, para abrir nela o caminho de surgir

mais poderosa. És a clara mensageira da ver-

dadeira manhã que vai chegar para o povo

e redimir este chão, de cujo amor vai se

erguer o sol da revolução.

 

 

Você também pode se interessar por

— Colofão

Coordenação

Marcelo Ferraz (UFG/CNPq)

Nelson Martinelli Filho (IFES/UFES/CNPq)

Wilberth Salgueiro (UFES/CNPq)

Bolsistas de apoio técnico (FAPES)

Juliana Celestino

Valéria Goldner Anchesqui

Bolsistas de pós-doutorado (CNPq)

Camila Hespanhol Peruchi

Rafael Fava Belúzio

Pesquisadores/as vinculados/as

Abílio Pacheco de Souza (UNIFESSPA)

Ana Clara Magalhães (UnB)

Cleidson Frisso Braz (Doutorando UFES)

Cristiano Augusto da Silva (UESC)

Diana Junkes (UFSCar)

Fabíola Padilha (UFES)

Francielle Villaça (Mestranda UFES)

Henrique Marques Samyn (UERJ)

Marcelo Paiva de Souza (UFPR/CNPq)

Mariane Tavares (Pós-doutoranda UFES)

Patrícia Marcondes de Barros (UEL)

Susana Souto Silva (UFAL)

Weverson Dadalto (IFES)

Além dos nomes acima muitas outras pessoas colaboraram com o projeto. Para uma lista mais completa de agradecimentos, confira a página Sobre o projeto.

O MPAC é um projeto de caráter científico, educativo e cultural, sem fins lucrativos. É vedada a reprodução parcial ou integral dos conteúdos da página para objetivos comerciais. Caso algum titular ou representante legal dos direitos autorais de obras aqui reproduzidas desejem, por qualquer razão e em qualquer momento, excluir algum poema da página, pedimos que entrem em contato com a nossa equipe. A demanda será solucionada o mais rapidamente possível.

— Financiamento e realização

© 2026 Todos os direitos reservados